Orientação imobiliária
Transaction Broker: neutralidade legal x defesa de interesses. Onde fica o cliente nessa equação?
Por Flavia Arruda Salinas · 11 de setembro de 2026

Capa editorial fornecida pela cliente; pessoas e cenário não representam uma transação identificada. · Flavia Arruda Salinas
Da Série: Pérolas do Mercado Imobiliário no Sul da Flórida.
A legislação imobiliária da Flórida (Florida Statute 475.278) estabelece três formas possíveis de relacionamento entre um corretor licenciado e as partes de uma transação: agente único (single agent), corretor de transação (transaction broker) e nenhum relacionamento de corretagem (no brokerage relationship). Na prática do mercado, a modalidade mais comum é a de transaction broker — inclusive, a lei presume esse modelo como padrão, a menos que um relacionamento diferente seja formalizado por escrito.
O ponto que poucos param para analisar com atenção é o seguinte: como transaction broker, o profissional presta uma “modalidade limitada de representação" ao comprador e vendedor simultaneamente, sem atuar como fiduciário de nenhuma das partes. Isso significa que lealdade e obediência — deveres típicos de uma representação plena — não fazem parte dessa modalidade; existe, porém, confidencialidade limitada, salvo renúncia por escrito. O corretor deve agir com honestidade, diligência e transparência para ambos os lados, mas está legalmente impedido de atuar como agente fiduciário de qualquer um deles.
Essa neutralidade tem uma função clara: viabilizar transações em que o mesmo profissional, ou a mesma imobiliária, está em contato com as duas partes. No entanto, ela também tem um custo, especialmente na mesa de negociação. Negociar é, por definição, um exercício de defesa de posição. Um profissional que precisa permanecer equidistante entre comprador e vendedor não tem, sob a ótica legal, o mesmo espaço para pressionar por melhores condições de preço, prazo ou cláusulas contratuais em nome de um único lado.
É aqui que reside um posicionamento profissional relevante: para representar os interesses do cliente da forma mais completa possível, principalmente no momento da negociação, o ideal é que o corretor atue como agente único (single agent) de apenas uma das partes — comprador ou vendedor —, e não como transaction broker de ambas ao mesmo tempo. Essa escolha não é sobre desconfiar do modelo de transação neutra, que tem espaço e utilidade no mercado. É sobre reconhecer que lealdade plena e neutralidade formal são, por definição legal, incompatíveis — e que o cliente que busca alguém para estar do seu lado precisa entender essa diferença antes de assinar qualquer divulgação de relacionamento.
Escolher o tipo de representação certo, com clareza sobre o que cada modalidade garante — e o que ela não permite —, é uma das decisões mais importantes de qualquer transação imobiliária na Flórida.
Fontes oficiais utilizadas:
- Florida Statute 475.278 — Authorized brokerage relationships; presumption of transaction brokerage; required disclosures. The Florida Senate, versão 2025 (vigente em 2026, sem emendas legislativas desde o ch. 2009-20). https://www.flsenate.gov/Laws/Statutes/2025/475.278
- Chapter 475, Florida Statutes — Real Estate Brokers, Sales Associates, Schools, and Appraisers. Florida Real Estate Commission (FREC) / Department of Business and Professional Regulation (DBPR). https://www2.myfloridalicense.com/servop/testing/documents/FREC_printable_LawBook.pdf
- Florida Statute 475.278(2)–(3) — Definição e comparação entre os deveres do transaction broker e do single agent.
- Florida Administrative Code, Chapter 61J2-10 — confirma que a regra específica do FREC sobre aviso de transaction broker (61J2-10.037) foi revogada; a exigência de divulgação é regida diretamente pelo §475.278. https://flrules.org/gateway/readFile.asp?sid=0&tid=0&cno=61J2-10&caid=1599062&type=4&file=61J2-10.doc




