Perspectivas de mercado
Miami: família vira estratégia imobiliária — em dois extremos de patrimônio completamente opostos
Por Flavia Arruda Salinas · 24 de setembro de 2026

Capa editorial fornecida pela cliente; pessoas e cenário não representam uma transação identificada. · Flavia Arruda Salinas
Em Coconut Grove, uma família reorganizou as finanças para comprar uma casa com espaço extra para os avós morarem junto ao resto da família. A poucos quilômetros dali, em janeiro deste ano, duas propriedades vizinhas foram compradas por US$ 173,4 milhões — a menor delas, uma mansão à beira da Biscayne Bay — para serem convertidas em um único complexo particular. Orçamentos que não se comparam. Lógica de fundo, curiosamente, parecida: manter a família dentro do mesmo perímetro.
Miami está vivendo essas duas histórias ao mesmo tempo, e elas raramente aparecem lado a lado.
A compra multigeracional como resposta à conta que não fecha
Segundo a Realtor.com, Miami já figura entre as regiões do leste americano com mais de 6% dos domicílios multigeracionais — patamar bem acima da média nacional, que gira em torno de 4,5%, conforme o Censo americano. O relatório 2026 Home Buyers and Sellers Generational Trends, da National Association of Realtors, mostra a Geração X (46 a 60 anos) na liderança desse tipo de compra: quase um em cada cinco compradores dessa faixa optou por um imóvel multigeracional. Cuidado com pais idosos, economia de custo e filhos adultos voltando para casa lideram as justificativas.
Florida tem estrutura demográfica que empurra esse movimento com força própria — está entre os estados com maior proporção de residentes acima de 65 anos do país. A conta, para muita família em Miami, é direta: dividir hipoteca, seguro e taxa condominial entre duas ou três gerações costuma pesar menos do que manter dois endereços separados numa cidade onde o custo de moradia disparou.
O "landmaxxing" como resposta ao dinheiro que sobra
No topo da pirâmide, o movimento tem outro nome e outra lógica. Corretoras como a Coldwell Banker vêm chamando de "landmaxxing" a corrida de compradores ultra-ricos por comprar o lote vizinho, o terreno ao lado, a casa da esquina — até o endereço virar um complexo particular. O relatório de meio de ano 2026 da própria Coldwell Banker registrou alta de 97% nas buscas por terrenos e de 146% nas buscas por propriedades únicas — mansões históricas, ilhas privadas, residências de marca.
Miami concentra boa parte dessa movimentação. Jeff Bezos já investiu mais de US$ 230 milhões reunindo três propriedades em Indian Creek Island. O ex-CEO do Google, Eric Schmidt, gastou US$ 114 milhões desde 2020 comprando ao menos cinco casas vizinhas nas Sunset Islands. Um veículo ligado ao family office do empresário canadense Lino Saputo pagou US$ 16,5 milhões por um imóvel em Allison Island — que já tinha o lote ao lado em seu próprio nome, dobrando o terreno de uma só vez. A explicação mais citada pelos corretores que fecham esses negócios: com litoral limitado e estoque de terreno praticamente esgotado, juntar lotes vizinhos virou o único caminho para conseguir escala.
O ponto em comum que passa despercebido
As duas pontas do mercado — a família que divide contas para caber sob o mesmo teto e o bilionário que compra a casa do vizinho para ampliar seu perímetro — respondem, cada uma à sua maneira, à mesma pressão: espaço qualificado em Miami está escasso, e reunir mais de um imóvel sob uma única estrutura familiar virou estratégia, não coincidência. A diferença está no motivo declarado. Para uma ponta, é sobrevivência financeira num mercado que encareceu rápido demais. Para a outra, é proteção patrimonial, privacidade e — segundo corretores de luxo ouvidos pelo Wall Street Journal — um hedge contra inflação, já que terreno bem localizado não se refaz.
O efeito colateral é parecido nos dois casos: cada imóvel absorvido dentro de um complexo — familiar ou de patrimônio — sai definitivamente do estoque disponível naquele bairro. Em mercados como Indian Creek, Sunset Islands ou Palm Island, isso já é perceptível na escassez de opções à venda.
Para quem representa comprador ou vendedor em Miami hoje, entender qual dessas duas lógicas está do outro lado da mesa muda a estratégia de negociação inteira — desde a estrutura de oferta até o apetite por prazo e sigilo na transação.
Fontes oficiais consultadas:
- National Association of Realtors — 2026 Home Buyers and Sellers Generational Trends Report
- Realtor.com Research, citado por Laughlin Tanner Group — dados de domicílios multigeracionais por metro, maio de 2026
- U.S. Census Bureau — American Community Survey (dados de domicílios multigeracionais)
- Coldwell Banker Global Luxury — 2026 Mid-Year Luxury Report, citado pela Florida Realtors (agosto de 2026)




